Depois da maratona Hoje passei pelo jardim e fui saudar e congratular os amigos da mata pelas belas prestações que tiveram na Rock n' Roll Maratona de Lisboa, no passado Domingo.

Houve tempos para todos os gostos (ou capacidades): perto das 3 horas; 3 horas e um quarto; 3 horas e meia... quase que parecia que podiam ter feito a vez dos corredores das bandeirolas. Foram 6 atletas no total e o tempo mais lento demorou cerca de 4 horas e meia, mas que teve o mérito de ter conseguido terminar, em grande dificuldade e a andar nos últimos 10 km da prova.

( No nosso site existe uma secção: Estatísticas-> Outros-> Gestão de provas onde podem adicionar as provas dos vossos amigos e comparar diretamente com os vossos resultados). Quase todos sofreram, com diferentes intensidades, o efeito de bater na parede, referido aqui num dos artigos anteriores...

Se se proporcionar, podemos ainda tentar obter deles algumas impressões na primeira pessoa acerca das suas experiências na maratona e partilhar depois convosco...

Seja como for, o meu espanto foi tê-los visto já todos a correr hoje como se não tivessem participado numa prova de 42 km no Domingo passado... Apesar deles não costumarem ler o que vamos escrevendo aqui no site, dedicamos-lhes as seguintes considerações. O texto que se segue foi retirado e adaptado do livro "The competitive runner's handbook" de Bob Glover and Shelly-lynn, nomeadamente do capítulo "The Aftermarathon"...

The competitive runner's handbook"...Quase todos os atletas que se propõem a participar numa maratona levam a cabo o seguimento de um cuidadoso plano de treinos por forma a conseguirem obter uma prestação na prova que corresponda às suas expetativas. Porém, são poucos aqueles que dão a devida importância à fase pós-maratona. Alguns dias depois da prova, a pessoa encontra-se cansada e com a mente indisciplinada. Basicamente nesta fase os objetivos já foram cumpridos. Após uma maratona, nos dias e semanas que se seguem, o atleta encontra-se bastante vulnerável a lesões e a doenças. O tempo que demora até que o atleta volte à fase de boas corridas é determinado pelos seguintes fatores:

  • Fitness, experiência e idade: Quanto melhor foi o treino e quanto mais experiência tem o corredor, melhores serão as probabilidaddes de uma recuperação rápida. Normalmente, um corredor com muitos quilómetros recupera mais rápido que um corredor com poucos quilómetros. Existe também uma relação direta entre a idade e o tempo de recuperação: quanto mais avançada for a idade mais lenta é a recuperação.
  • Lesões antes da prova ou lesões obtidas durante a prova: Se a pessoa arriscar e fizer a maratona já num estado em que apresente lesões ou esteja doente, existe a possibilidade do atleta se revelar um duplo perdedor. Irá provavelmente correr abaixo das suas expetativas e piorar qualquer sintoma que já tivesse antes da prova, levando a várias semanas de atraso no regresso à boa forma.
  • Flexibilidade e força muscular: A maratona é uma prova que pune severamente os atletas que não apresentem à partida uma boa flexibilidade e tenham tido uma preparação muscular apropriada. Nesses casos a recuperação demorará mais tempo.
  • Ritmo de corrida, abastecimentos e hidratação: Começar a prova num ritmo muito elevado ou com combustível ou líquidos insuficientes tem efeitos na recuperação. E, do mesmo modo, as condições da prova: se tem muitas subidas ou descidas; se está muito calor ou muita humidade.
  • Procedimentos de recuperação pós-prova: O trabalho do atleta não acaba na linha final. É preciso lutar contra a vontade de descanso imediato e esperar que a dor e a fadiga desapareçam. É preciso a pessoa forçar-se a começar a etapa muito importante, e muitas vezes negligenciada, do processo de recuperação pós-maratona. Se a pessoa não tem atenção às queixas do corpo, se não repõe rapidamente os níveis de glicogénio ou tem atenção em relação a uma rápida hidratação, terá uma recuperação mais lenta. (...)"

O livro, aliás, bastante bem escrito, tem depois alguns capítulos acerca de dicas a seguir nas primeiras horas e dias passados depois da maratona; tem um parágrafo sobre a rehidratação e reposição de combustível; um capítulo sobre o regresso às corridas e às competiçoes e finalmente, uma secção dedicada a desafios seguintes. Dessas secções gostaria ainda de chamar a atenção para o seguinte parágrafo:

"(...) Tenham atenção às falsas sensações de bem estar e força que podem experienciar alguns dias depois de terem feito um grande esforço numa maratona. Tenham calma e tentem refrear o espírito. Mesmo que se sintam fortes, não estão. Uma regra empírica a seguir é que se deve alocar um dia de recuperação por cada milha corrida (42 km corresponde aproximdademente a 26 milhas).

Bob GloverAssim, são precisos cerca de 26 dias a um mês para uma completa recuperação. Alguns atletas podem recuperar mais cedo, outros mais tarde, consoante a pessoa e alguns dos pontos abordados acima. O mesmo atleta pode ainda recuperar mais rapidamente duma maratona que de outra. As biópsias feitas a maratonistas mostraram que as células musculares demoram cerca de um mês a recuperar dos danos microscópicos provocados durante a corrida. Além da recuperação muscular e de pequenas lesões, o atleta precisa ainda de tempo para restaurar a química corporal e os níveis normais de glicogénio do corpo e ganhar ainda o desejo para treinar para uma novo desafio. (...)"

Para o Sr. Romão, que diz que quem escreve livros não corre, pode confirmar através da fotografia do autor ao lado ;)