Este foi o quarto artigo recebido por nós no âmbito do concurso que temos em aberto até ao final do ano. Consulta as condições da participação aqui.

Não sou maratonista.

Este foi o sentimento com que terminei ontem a prova, após 14km de muito sofrimento. As pessoas davam-me os parabéns mas o sentimento era de indiferença, não me sentia merecedor do título de maratonista e a medalha foi guardada sem ver. Só à noite quando arrumei o saco a vi pela primeira vez.

Partia para esta prova sem expectativas, recusei estabelecer metas ou tempos e fiz um treino baseado exclusivamente em quilómetros. Mas o plano correu muito bem, os parceiros elogiavam-me, afiançavam que conseguia fazer 4h e comecei a pensar que conseguiria. Contra os meus princípios, não acompanhei os meus amigos para tentar acompanhar a bandeira das 4h, convencido que era um objectivo realista. Afinal eu era o gajo que nos treinos acelerava dos 32 aos 35k, enquanto todos os outros se arrastavam até ao final.

O meu primeiro erro foi não perceber que seguir uma bandeira que seguia 10 a 15s por km mais rápido que o ritmo das 4h era um erro. Mas sentia-me bem e foi assim que cometi o segundo erro. Apesar de ter treinado sempre um primeiro gel aos 12k adiei até aos 17k altura em que deixei a bandeirola seguir pois vi que o ritmo era muito forte e não ia conseguir aguentar. Comecei a poupar-me numa tentativa de recuperar energia mas foi tarde. Beber água provocava-me dor de burro, coisa de que nunca sofri numa corrida e o ouvido esquerdo ficou "tapado", o que me assustou um pouco. Equacionei desistir em Algés onde tinha o carro mas decidi continuar, apesar de cansado achei que conseguia recuperar se fosse mais devagar.

O ritmo foi baixando e nunca mais recuperava, fui sendo ultrapassado por amigos que me perguntavam incrédulos se estava tudo bem. Dizia que tinha estoirado mas apetecia-me dizer que tinha sido estúpido.

Aos 28k cometi o erro fatal, comecei a andar... Decidi fazer um "walking break" para comer uma barra que trazia. Quando recomecei a correr as pernas pesavam toneladas, arrastava dois troncos e em nada se parecia com correr. O Nuno Rito incentivou-me, voltava dos Restauradores enquanto eu subia, aparece a Cláudia Pernencar que correu alguns metros ao meu lado dando-me força enquanto lhe explicava que tinha estoirado (tinha sido estúpido)...

Volto a andar e eis que se junta a Gabriela Freitas, vinha também cansada, fizemos companhia um ao outro durante algum tempo enquanto ansiávamos por água e alternávamos corrida com caminhada. Comecei a sentir puxões constantes nos adutores a anunciar cãibras que me poriam fora de acção. E assim cometi o erro número quatro. Desesperado pois tinha batido contra o muro com toda a força, aos 33km fiquei parado no abastecimento enquanto engoli dois géis (ou geles, como preferirem), bebi dois copos de Powerade fresquinho e bebi uma garrafa de água morna. Ao cansaço e às ameaças de cãibras, juntei um estômago cheio de líquidos e açúcar. A Gabriela e o António Quaresma, que se tinha juntado entretanto, seguiram correndo enquanto eu caminhava e pensava em desistir. Pensei nas pessoas que me esperavam na meta, na minha amiga Dora Monteiro que tinha prometido esperar até eu terminar depois de ter efectuado a sua primeira meia-maratona.

Alguns metros à frente encontrei o António a ser assistido com cãibras, esperei por ele e seguimos. Por mais duas vezes as cãibras voltaram e parei enquanto o assistia até ser apanhado pela Henriqueta Solipa, Joana Saraiva e João Campos.

A Henriqueta ficou com o António e segui caminho com o João e a Joana. A paragem de alguns minutos fez-me bem, apesar de cansado consegui correr até ao final. À medida que o final se aproximava o cansaço parecia pesar cada vez mais, reuni forças para sorrir aos amigos que me incentivavam, o Carlex, o Iosif e segui até à meta onde fui incentivado por várias pessoas, recordo-me da Dora, do Bernardo, da Elsa Fonseca e outros que se varreram...

 

Depois de ver tanta gente a congratular-se por ser maratonista, alguns com tempos piores que eu, outros que sofreram tanto ou mais que eu, decidi adiar o texto negativista que tinha começado a pensar ainda durante a prova. Será que tinha corrido assim tão mal?

Terminei a prova a sorrir para a fotografia (obrigada Sandra Ramos Claro) acompanhado pela minha amiga Joana que me aturou nos km finais (aposto que nunca pensaste ser tu a puxar por mim na maratona), não cheguei a ter cãibras e cheguei ao fim sem problemas físicos, além de estar totalmente esgotado. Fui incentivado durante quase todo o percurso por conhecidos e desconhecidos e no fim recebi os parabéns dos amigos e tirámos fotografias. Venci o combate psicológico, a vontade de desistir que me acompanhou durante alguns km, no final bebi espumante, comi pastéis de nata e finalmente cheguei a casa são e salvo. Tudo motivos para festejar após fazer uma maratona e, além disso, hoje senti-me sortudo pois ao contrário de muitos outros eu não tenho um andar novo e subo e desço escadas sem problemas de maior.

Não fiz o tal tempo que acabei por ambicionar mas e depois? Seria esse um objectivo meu ou algo que apanhei de outros?

No final disse a algumas pessoas que não voltaria a fazer uma maratona. Após refletir altero o meu discurso... Não sei se volto a fazer uma maratona mas garanto que não volto a fazer uma maratona assim, se houver uma próxima vez acompanho os amigos, sigo com um ritmo que seja realista e chegarei ao fim sem sofrer (muito!).

E hoje afirmo, com algum orgulho: sou maratonista. :)