O início e a motivação

Tudo começou em Novembro de 2011, e estava longe de vir algum dia a correr uma prova de atletismo sequer, quanto mais uma maratona. Na altura, com 96kg e a querer perder mais peso, e com alguns bons exemplos bem perto de mim, resolvi começar a correr de forma consistente. Desde há muitos anos que fazia exercício em ginásio e corria, mas de forma muito irregular. No máximo 30 minutos três vezes por semana e era um esforço descomunal. Por vezes passavam-se longos meses em que nada fazia no que diz respeito a exercício físico. A não ser que levar o garfo à boca conte.

Tinha redescoberto a caminhada com a família e o passo seguinte foi começar também a correr. Penoso (muito) no início, pois sair às 6h da manhã da cama não é para qualquer um, muito menos para mim que considerava essa actividade e horário bastante radicais per si. Porém, com pessoas que fui conhecendo e passei a acompanhar em treino, ao fim de pouco mais de um mês corria 1h e sabia-me muito bem. Depois em Janeiro de 2012, também incentivado por outros, resolvi inscrever-me numa prova de 10km e tive uma epifania. O ambiente é fantástico e só nesse ano foram mais 14 provas, incluindo duas meias-maratonas.

Há muito tempo que “namorava” a ideia de correr a maratona. O desafio que representa sempre me fascinou. O temor, medo e respeito que um esforço destes inspira motivavam-me ainda mais a tentar fazer esta distância. Cá bem no meu íntimo havia algo que me empurrava em direcção ao desconhecido para tentar perceber a mística que existe em correr durante 42km.

Decisões, decisões... e a preparação

Então, no início de 2013 estabeleci que iria correr pelo menos uma maratona. E verbalizei-o perante muita gente a título de comprometimento real. Diziam, “está bem abelha” ou “passaste-te dos carretos”. Mas isso não me demoveu. Desde Janeiro que os treinos durante a semana e as provas em que participava tinham um fundo de preparação, ainda que pouco estruturado. A partir de Julho segui um programa de treinos orientado à especificidade desta distância. Treinos em Lisboa, no Algarve e no Alentejo. Sempre de manhã cedo, mas o calor fez-se sentir bem. Como consegui terminar a prova, constato com agrado que a preparação deu os seus frutos, mesmo não tendo seguido a 100% as sessões de treino prescritas no plano.

Paulo Jorge PeresA prova

Chego à linha de partida com quase uma hora de antecedência. Está um dia glorioso para a prática de qualquer modalidade de ar livre, mas para o que temos pela frente está calor a mais. Para mim não é lá muito bom. Os atletas de topo estão a aquecer e suam abundantemente e penso que se tentasse fazer o mesmo, a minha maratona terminaria pelos 10km tal o ritmo de treino que eles imprimem. O meu nervoso é apenas quanto baste. Encontram-se conhecidos e trocam-se palavras de incentivo. O objectivo é fazer 4h30m, mas se não der, não dá. O que importa mesmo é chegar ao fim.

Com que entreter o cérebro...

42 km dá para tudo e a mente entretém-se com muitas coisas. Desde as muito importantes até às mais insignificantes. Pensa-se nos que já partiram para a corrida que não tem linha de chegada. Nos que não podem estar presentes por motivos de doença, profissionais, familiares ou porque arranjaram algo mais interessante para fazer... A todos dedico-lhes o meu esforço. Interrogo-me sobre as motivações dos que andam ali ao lado comigo. Acena-se aos que nos batem palmas. Emociono-me com o placard que diz “Vós sois todos campeões!”

Mais uns quilómetros e “Mas onde é que eu estava com a cabeça para me inscrever nisto? Preciso mesmo de fazê-lo?”

Aahhh, a Praia de Carcavelos. Convidativa a todos os títulos – vou antes dar um mergulho, beber um refresco e simplesmente apreciar a paisagem. Afasto as fantasias e concentro-me no asfalto. Há largos momentos em que se pensa apenas na dor no dedo grande do pé esquerdo, outros em que só dá para obrigar um pé em colocar-se à frente do outro e assim sucessivamente. É que querem mesmo ficar sossegados! Regularmente pensa-se em hidratar e comer uma barra energética, senão a meta fica comprometida.

Metade do percurso e até aqui, tudo bem. Mas começam a surgir instantes, que duram uma eternidade, em que temos que resistir ao pensamento de entrar nas estações de comboio ou Metro que nos podem levar a casa em 20 minutos e acabar com o sacrifício. Uma cãibra? Não se pensa nela e deixa de existir (é mentira), mas há que andar a passo durante alguns minutos. Mamilos doridos e ensanguentados? Não estou num concurso de elegância e boa apresentação, mas doem e não é pouco!

A partir do km 30, pensa-se onde vamos estar daqui a 5, 10 minutos. Será que chego lá? Agora estou em território desconhecido pois nunca corri mais do que 25km em treino. E mais umas cãibras... Deve ser o “muro”, a “parede”, a “muralha”, o que quiserem, mas só há que deitá-la abaixo.

Conversamos com os que nos passam e com os amigos que nos fizeram a surpresa de aparecer para dar uma palavra de incentivo no Terreiro do Paço. Falamos com os que ultrapassamos e constato que afinal há quem esteja em piores condições. Tenazmente continuam, uns a andar, outros a andar um tudo nada mais rápido, ainda uns quantos que fazem a prova em “pára-arranca”. Mas continuam porque perder para o asfalto é uma maçada depois dos sacrifícios feitos até aqui. É que nem pensar nisso!

Surge a placa dos 36km. Já só visualizo cruzar a meta, e é isso que me mantém focado. A cerca de 2km do fim as dores não se sentem de todo e as pernas e os braços estão em modo automático. Nesta altura não penso em nada. Meta à vista! Sorrir, sorrir sempre. Cruzo a meta após 5h 35m e, ... afinal já acabou? Onde estão a mulher e os filhos? Beijos e abraços. Parabéns de desconhecidos. Medalha orgulhosamente ao peito que parece pesar toneladas e tenho granito onde devem estar músculos das pernas. De facto é místico e foi uma aventura épica. Um sentimento espectacular e único de ser maratonista. Mas jurei a mim mesmo que nunca mais me meto noutra!

A motivação revisitada

Quem tem o sonho de fazer uma maratona, continue a alimentá-lo. Dêem-lhe mimos, ou seja, coloquem tempo e km sucessivamente maiores nas pernas. Se crêem estar preparados, inscrevam-se. Corram descontraídos e divirtam-se. De repente estão a cruzar a meta com um sorriso nos lábios.

Agradecimentos

A todos os que fui conhecendo desde que embarquei nesta aventura de correr. São demasiados para enunciar individualmente neste texto e não quero correr o risco de esquecer-me de alguém. Desde a família e colegas de trabalho, a blogs e livros sobre corrida. Atletas de nomeada nacionais e internacionais. E ainda muitas pessoas simples e de várias idades, profissões e estrato social que nos treinos no Parque das Conchas sempre tiveram disponibilidade para partilhar experiências e dar palavras de incentivo perante o desafio que sabiam que eu iria enfrentar. Além de inspiração, devo-lhes sobretudo uma palavra de gratidão.

Epílogo

Há coisas em que tenho muito pouca força de vontade. Já estou a pensar em entrar noutra maratona...