Ana FerreiraNao há como fugir e se dissesse o contrário estaria a mentir e a armar-me em valente, foi duro. Foi duro desde o inicio, umas semanas antes, quando vi que nao iria conseguir preparar-me minimamente, nao que eu o faca habitualmente, mas nao era uma corrida qualquer, seriam 42 km. 42 km onde nao faltam relatos de pessoas que desistem, pessoas que se sentem mal, pessoas que se lesionam, pessoas que estão bem preparadas, algumas das quais que fazem disto vida.

 Nunca havia tempo para treinar, as corridas feitas tinham uns tempo miseráveis, a alimentação não era a desejada para estar no top no dia 6, as horas de sono foram sempre negligenciadas, na semana antes mais ainda, como a mudança de horários a pedir que passasse a acordar às 6h15 e sem tempo para correr, na semana que antecedeu corri apenas 2 dias.

 Andava preocupada, que fosse fazer aquilo "de cabeça" como costumo fazer tudo, mas que isso tivesse implicações irreversíveis, pensei em não ir por várias vezes, pensei em ir e "de certeza que vou desistir aos 15 km", pensei em não ir "porque não quero desistir a meio pois não é algo que goste".
 
 Sempre disse que dificilmente faria uma maratona, não só pela questão física mas também pelo facto de "me fartar" de correr tantas horas, ora aí estava mais uma achega para não ir, nem para preparar uma playlist tive tempo, quais podcast quais quê, o que estava no iPod há meses assim continuou e assim foi.

 Além das pessoas que inevitavelmente sabiam ( apenas 2), a mais ninguém disse, à família fui dizendo que teria uma corrida dia 6, (mais uma pensavam eles), cerca de 2 semanas antes fui sendo mais específica, tive uma abordagem bipolar, ora gostava de falar sobre "a corrida", ora tentava mudar de assunto. Mas, interiormente fui procurando apoio, motivação, precisava do arrepio, tive-o, tenho-o.

 O dia vinha-se aproximando, 5 dias antes iniciei uma nova etapa a nível profissional, a minha cabeça andava em todo o lado menos na corrida, no dia 5 é que tomei consciência do que iria fazer, aí, uma vez mais, procurei o apoio, obtive-o, a palavra "obrigada" nao chega, quem eu precisava estava lá.

 No dia 6 madruguei, a "carga cinegética" a crescer, começar a manha a rir foi especial, a dizer disparate, a descontrair.

O percurso para a corrida iniciou-se, a companhia descontraída foi vital, o incentivo continuou, uma maneira diferente.

 A corrida começa, chiça, "ainda nem 10 km fizemos e parece que ja fiz os pirineus para cima e para baixo", Algés marca a metade do percurso, " raios, ainda falta metade", cais do sodre parecia que estava no jogo de computador e alguém como o cursos a eliminar "bonequinhos", corredores a parar, a abrandar, a dessistir, tentei nao olhar e continuar, estava no km 30, "ja não falta tudo" penso,  "como terá sido a meia maratona", "de certeza que foi essa que fez", "depois quando tiver o telefone ligo logo para saber". Fui correndo e viajando nos pensamentos, ajudou, santa apolonia, quero água, a dada altura a água parecia insuficiente, era a cada 3 km mas para mim parecia o dobro, "calma, agora não vais baixar os braços", reduzi um pedacinho a passada, km 36, "so faltam 8", ainda faltavam 8!
 
Objectivo, manter o passo de corrida, curva para a esquerda para virar para o parque das nações, rotunda, ja não sabia a quantas andava, estava a correr em modo automático, estava sem noção espacial de lugar ou temporal.

 Uma camisola vermelha Aparece-me ao lado, km 39, olho, não percebi, olho de novo, surpresa total, de repente foi como se estivesse a correr no paredão num qualquer fim de tarde de verão, em passada lenta e à conversa e a rir, um arrepio enorme ca dentro, uma gratidão, um constatar. Km 42, consegui, terminei, não acredito, estou bem, normal, só queria o gelado, era o minino que podia fazer, toma, é um magnum;)

Arrepiante, nao é para quem quer, é para quem tem a felicidade de o sentir.